Vantagens e desvantagens de se realizar uma Copa do Mundo de Futebol no Brasil – um país em desenvolvimento
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Uma das mais festejadas competições esportivas é a Copa do Mundo de Futebol, realizada a cada quatro anos em um país sede que é escolhido por uma comissão avaliadora seis anos antes. Muitos países desenvolvidos já foram sedes de mundiais tais como Alemanha, França, Inglaterra, Itália, Japão e Estados Unidos, países que concentram os maiores e mais modernos aeroportos, centros de saúde, sistema viário, rede hoteleira, sistemas de comunicação e possuem contingente policial melhor equipado e treinado. Mais recentemente na história dos mundiais, países em desenvolvimento como México, duas vezes, e África do Sul também já sediaram o evento, tendo que investir tempo e dinheiro na reestruturação de serviços básicos como os acima citados. A questão é até que ponto um evento dessa magnitude pode afetar positivamente ou negativamente a estrutura organizacional em âmbito socioeconômico em países que ainda não possuem a mesma infraestrutura de países desenvolvidos?
Um evento do porte da Copa do Mundo está relacionado a impactos socioeconômicos diretos e indiretos, sendo possível determinar os efeitos positivos sobre o país e as cidades-sede bem como dimensionar e avaliar os riscos que podem comprometer seu sucesso. Paralelamente, a Copa traz, com os investimentos em infraestrutura, a atenção da mídia, a movimentação da economia, a mobilização social, além de oportunidades para o governo, a iniciativa privada e a sociedade em geral. É um marco na história das cidades – que no Brasil serão em número recorde – uma chance real de mudança para melhor, além de configurar excelente oportunidade de geração de receita para diferentes setores da economia.
A preparação e a realização da Copa darão origem a legados, tanto físicos quanto intangíveis. Esses legados poderão gerar bem-estar para a população em um horizonte de tempo que se estende muito além do evento em si. Os setores mais beneficiados pela Copa do Mundo no Brasil serão os de construção civil, alimentos e bebidas, serviços de utilidade pública (eletricidade, gás, água, esgoto e limpeza urbana) e serviços de informação. A geração de novos empregos bem como um crescimento significativo de visitantes internacionais no Brasil deve crescer. É esperado um aumento de 79% de turistas até a Copa, com impacto superior nos anos seguintes.*
No entanto, é importante lembrar que esse aumento da movimentação da economia é um fenômeno restrito ao período de preparação e realização do evento, retornando ao seu estágio regular com o encerramento do mesmo. Os empregos criados na construção civil, por exemplo, não serão mais oferecidos ao término das obras, restabelecendo o excedente de mão-de-obra inativa. O pretenso aumento no fluxo turístico desde o período que antecede e enquanto durar o evento, beneficiará tão somente os destinos turísticos já conhecidos e amplamente divulgados, o que não inclui algumas das cidades-sede ou o país como um todo. Da mesma forma, o reforço financeiro adquirido por hotéis e restaurantes nas cidades-sede e suas microrregiões será também restrito ao período de realização do evento, retomando, após, o seu giro padrão e efeitos da sazonalidade.
Antigas requisições da sociedade, como a restauração e duplicação de ruas e rodovias que compõem e interligam as cidades-sede, concentrarão o dinheiro dos impostos nessas obras, retardando o investimento nos demais setores, como habitação, saneamento, saúde e ensino público; questões fundamentais e notoriamente mal resolvidas em países em desenvolvimento. O reflexo positivo de todas as melhorias advindas da preparação da Copa do Mundo de Futebol será sentido por uma parcela pequena da população como um acréscimo de comodidade no cotidiano. A ampliação, modernização e reestruturação dos aeroportos não condicionam aumento no uso dos serviços aéreos, e sim cooperam tão somente com o desafogamento do fluxo de passageiros.
A realização do sonho do progresso rápido esbarra no pouco prazo para execução das obras, acarretando o endividamento das cidades-sede perante a União em concorrência com a especulação de baixos investimentos e a possível ineficiência dos serviços. Em suma, o povo brasileiro está inserido em um universo lúdico, de fantasia, onde se espera sanar deficiências estruturais e organizacionais em tempo recorde, em detrimento dos problemas que afetam a maior parcela da população e que constituem reivindicações mais antigas e permanentes.
* Ernst & Young - FGV
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